quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Retórica Dependente

Tudo isso depende do que
pensamos, pois tudo é demais,
e o que pensamos às vezes
se parece com o nada, e
nada disso depende da
nossa negação, pois negamos
tudo, não pensamos nada
e esquecemos de ser independentes.
     
                        Ademar Bento

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Luis Carlos Guimarães e 10 de seus poemas

HOMENAGEM AO POETA
LUÍS CARLOS GUIMARÃES
   Nei Leandro de Castro

Dados biográficos

Luís Carlos Guimarães nasceu em Currais Novos, interior do Rio Grande do Norte, em 1934. Viveu quase toda sua vida em Natal, onde foi jornalista, juiz de Direito e professor universitário. Nos anos 70, fez um curso de extensão universitária na Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, e se apaixonou pela cidade, que visitava com muita freqüência. Poucos antes de morrer, Luís Carlos decidira  vir ao Rio para conhecer os recitais poéticos das noites cariocas.
Estreou em poesia em 1961, com  O aprendiz e a canção. Seguiram-se: As cores do dia, Ponto de fuga, O sal da palavra, Pauta de passarinho, A lua no espelho e O fruto maduro. Sem jamais ter saído da província natal, foi reconhecido como um dos grandes poetas do país, por escritores e poetas como Pedro Nava, Ledo Ivo, Francisco C. Dantas, Ivo Barroso,  Affonso Romano de Sant’Anna. Do seu livro Ponto de fuga, assim falou Pedro Nava: “Que poesia terrível e pungente é a sua! Todo o seu livro é uma onda me levando.”
Luís Carlos Guimarães também utilizou seu talento de poeta como tradutor. Publicou em  1997 113 traições bem-intencionadas, onde traduziu mais de 100 poetas latino-americanos e poemas de Arthur Rimbaud. A sua tradução de O corvo, de Edgar Allan Poe, é considerada de alta qualidade pelo tradutor e poeta Ivo Barroso.
Luís Carlos faleceu em Natal, no dia 21 de maio deste ano, dois dias antes de completar 67 anos. Morreu de um enfarte que ele previra num poema, Ode mínima ao enfarte do miocárdio, escrito em fevereiro de 1982.



Herança

Nos hectares da poesia
que me coube por herança,
colho safra de palavra,
armazeno provisão,
bebo de sede no poço,
como a fome no feijão.
Invento tudo que penso,
sou mago, palhaço e rei.
Tenho tudo que não tenho,
lua no fundo do copo
e o arco-íris na sopa.
De mãos dadas com Carlitos
alimento de pão e mel
os bichos todos do circo.
Pelo sem-fio da tarde
recebo urgente avegrama:
“De longe país ao Sul
vão no caminho do vento
dois passarinhos azuis.
Solicito alpiste e água
na concha de cada mão.”
A noite cobre meu sono
e da serragem do sonho
faço colchão, travesseiro.
Acordo. É ganho ou perda
ter mais um dia a viver?
Com flanela limpo os óculos
(janela dos olhos míopes)
mas não vejo mais poesia,
que sou cada vez mais turvo
diante da vida dura
e do mundo tão escuro.


Canção

No seu bordel em languidez sem alarde
a poesia se abisma toda em amor.
A soluçar baixinho ao cair da tarde
envolve em lençóis de seda sua dor.


Nona

Quando não mais esperava, chegou
com a doçura de uvas maduras.
Jorro de luz. Estrela-d’alva. Lua
refletida no rio, levada para o mar.
Crença me acenando com a proteção
do céu. Janela aberta à paisagem
que se vê pela primeira vez.
Macia como lã, sua voz na penumbra.
Canto de pássaro tecendo a manhã.


Segredo

No tom mais velado
conto o segredo
ao fundo do poço.
Como se fosse gravada
com um ferro em brasa,
nunca se apagará
no rosto da água
a cicatriz da poesia.


O pêssego

Por si só, como fruto,
não sugere seu sabor.
Para mim que desfruto
de sua forma, sua cor,
e com mão aliciante
sinto a polpa veludosa,
não penso no gosto diante
da penugem de tons rosa.
De repente, perplexo,
vejo um ventre de mulher:
sua vulva, o morno sexo
que está a se oferecer.
O pêlo da pele beijo,
mordo a carne sumarenta,
se me acende um desejo
que não se dessedenta.
A fome da minha língua
agora está saciada,
a do desejo não míngua,
tem que ser adiada.


Epitáfio

Aqui jaz um menino azul
tragicamente morto
num desastre de velocípede.


Poema soturno

Convém às pessoas soturnas
só trajar roupas escuras
(nem em festivo domingo
uma cor que lembre o dia).
Na lapela, ao lado esquerdo,
tarja de luto perpétuo;
presa à gravata noturna,
uma papoula sombria.
Ter oculto na algibeira
um relógio que parou
num dia de sexta-feira,
13, na hora em que seu corpo
a morte virá buscar.
Com ar de quem vai à forca
de capa e chapéu fúnebres,
com negros sapatos rotos
nas quedas e descaminhos,
seguir todos os enterros,
a alça do caixão na mão.
Mudar a verde esperança
pelo roxo das mortalhas,
cultivar flores malditas,
reinventar desesperos.
Gravar na pedra do espelho
a face podre do mangue,
tingir as mãos de vermelho
que é a cor da cor do sangue.
Com olhos sempre inclinados
escavar o duro chão
- os  sete palmos de terra -
herança de Deus aos homens
desde o tempo da criação.


Sagração do verão

De repente a mulher desabrochou nua
saindo do mar, pois a água não a vestia,
antes a desnudava, fazendo a sua
nudez mais nua à dura luz que afia
seu gume no sol da manhã que inaugura
o verão. Dezembro só luz reverbera
em seu corpo, doura-lhe as coxas, fulgura
nas ancas, no dorso ondulado de fera.
Fera que guarda no ventre um colmeia
com a flor em brasa do sexo que ateia
fogo ao meu desejo e tanto me consome
a vulva, gruta, rosa de pêlos – que nome
tenha – que desfaleço como se em sangue
me esvaísse morrendo de amor. Exangue.


Noturno

Toma meu amor
bebe até a última gota o vinho das estrelas
e olha para a noite desenrolada no céu
e vem e vem e deixa que eu assista à mutação dos teus olhos
na cor de mel ouro antigo chá e telha vã
enquanto não chega a hora de amar
desdobrar todos os minutos como pedras preciosas de um colar
quando minha boca passeia o teu corpo assustado
e meus dedos ciciam aos pêlos úmidos do teu sexo
e eu ávido cavalo te cavalgo montaria do meu amor.


CANÇÃO URBANA

O que me chama a atenção é um homem sozinho numa mesa,
nos seus cinqüenta anos bem morridos,
a entornar seu chope silenciosamente:
o homem do paletó cor de goiaba.
Necessariamente funcionário público,
na vizinhança da obesidade e do enfarte,
o homem do paletó cor de goiaba
tem cinco filhos, três netos,
uma mulher de barriga caída e varizes nos braços e nas pernas,
um apartamento de dois quartos no 12o andar do Edifício Flor de Laranjeiras
(financiado em 25 anos, com correção monetária, pelo BNH),
calos na sola do pé direito,
dentes cariados,
fígado inchado,
acessos semanais de asma brônquica,
uma sogra que encarna o dragão vomitador de fogo,
uma acentuada hipermetropia na visão esquerda
e bolsos furados.
E mais:
no morrer de cada dia,
o homem do paletó cor de goiaba
tem os ouvidos rasgados pelo barulho do trânsito,
sua sangue poluído de asfalto na repartição,
nas filas de ônibus e do INPS.
Entornando silenciosamente o seu chope,
o homem do paletó cor de goiaba
parece um boi.
Um boi.
Não o boi que pasta no campo,
mas o boi que vão levando ao matadouro.

sábado, 8 de outubro de 2011

O dia mais importante não é o dia em que conhecemos uma pessoa e sim quando ela passa a existir dentro de nós.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Quatro Amigos, Dois Mares e uma Pequena Sereia

     Era um caminho estranho. pois passávamos por uma trilha de areia branca que cortava o mar, chegamos num ponto que um monte de areia nos fez parar, ficou impossível a passagem de carro e tivemos que abandoná-lo, éramos quatro no total. Ficamos na expectativa de que alguém aparecesse pra que pedissemos ajuda, mas essa espera demorou além do que era previsto, percebemos a existência de outro mar logo após o monte de areia, e que quando estavam cheios os dois se encontravam formando apenas um, o tempo se passou de maneira que não percebemos como, muito rápido,aconteceu o esperado os mares começaram a encher se encontrando, se tornando um apenas, estou tranquilo mesmo sabendo que não sei nadar, ainda assim me sinto seguro, olho ao meu redor e não há mais ninguém dos que estavam comigo e o mar insisti em subir, em encher já estou com água até o pescoço e continuo calmo apesar de tudo.
      Então ela, a água chega ao seu limite máximo e me engole, consigo apenas o principal pra tentar sobreviver que é respirar, piso no fundo do mar e me impulsiono até o alto assim tomando fôlego, num certo momento me aparece inexplicavelmente uma menina de idade não determinada por mim, e essa pequena muito boa sob a água, me ajuda e consegue conduzir, com certa dificuldade meu corpo já cansado pra um lugar seguro, era um trapiche com uma escada. Nunca soube seu nome, mas me chamou muito atenção o detalhe de que ela estava com o rosto estampado de felicidade por ter conseguido me salvar, não tive oportunidade de agradecer por esse favor, pois não a vi depois disso e nem nunca mais. Se POR VENTURA vocês encontrarem uma menina com a altura de 1,50m aproximadamente, suponho isso, pele branca e cabelos negros, por favor agradeçam, e digam a ela que por instantes a minha vida esteve nas mãos dela. E éramos quatro e sobrou só eu!

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Prepara uma avenida que a gente vai passar!!!


Conversa de Botas Batidas
Los Hermanos

- Veja você onde é que o barco foi desaguar
- A gente só queria um amor
- Deus parece às vezes se esquecer
- Ai, não fala isso por favor
Esse é so o começo do fim da nossa vida
Deixa chegar o sonho
Prepara uma avenida
Que a gente vai passar

- Veja você, quando é que tudo foi desabar
- A gente corre pra se esconder
E se amar se amar até o fim
Sem saber que o fim já vai chegar

Refrão
Deixa o moço bater
Que eu cansei da nossa fuga
Já não vejo motivos
Pra um amor de tantas rugas
Não ter o seu lugar

Abre a janela agora
Deixa que o sol te veja
É só lembrar que o amor é tão maior
Que estamos sós no céu
Abre as cortinas pra mim
Que eu não me escondo de ninguém
O amor já desvendou nosso lugar
E agora está de bem

Refrão

Diz quem é maior
Que o amor
Me abraça forte agora
Que é chegada a nossa hora
Vem vamos além
Vão dizer
Que a vida é passageira
Sem notar que a nossa estrela
Vai cair


Janta



Janta  
Marcelo Camelo

Eu quis te conhecer mas tenho que aceitar
Caberá ao nosso amor o eterno ou o não dá
Pode ser cruel a eternidade
Eu ando em frente por sentir vontade

Eu quis te convencer mas chega de insistir
Caberá ao nosso amor o que há de vir
Pode ser a eternidade má
Caminho em frente pra sentir saudade

Paper clips and crayons in my bed                    

Everybody thinks that I'm sad                           
I take my ride in melodies and bees and birds  
Will hear my words                                           
Will be both us and you and them together       
I can forget about myself trying to be anybody else
I feel allright that we can go away
And please my day
I'll let you stay with me if you surrender
 
Janta 
Marcelo Camelo

Eu quis te conhecer mas tenho que aceitar
Caberá ao nosso amor o eterno ou o não dá
Pode ser cruel a eternidade
Eu ando em frente por sentir vontade

Eu quis te convencer mas chega de insistir
Caberá ao nosso amor o que há de vir
Pode ser a eternidade má
Caminho em frente pra sentir saudade

Clipes e giz de cera na minha cama
Todo mundo pensa que eu estou triste
Eu vou passear em melodias e os pássaros e as abelhas
Ouvirão minhas palavras
Vamos ficar nós dois e você e eles juntos
Eu posso esquecer de mim mesmo, tentando ser outra pessoa
Eu estou certo de que nós podemos ir em frente.
E satisfazer meu dia.
Eu deixo você ficar comigo se você se render.

Rubem Braga - Meu ideal seria escrever...

Meu ideal seria escrever uma história tão engraçada que aquela moça que está doente naquela casa cinzenta quando lesse minha história no jornal risse, risse tanto que chegasse a chorar e dissesse — “ai meu Deus, que história mais engraçada!”. E então a contasse para a cozinheira e telefonasse para duas ou três amigas para contar a história; e todos a quem ela contasse rissem muito e ficassem alegremente espantados de vê-la tão alegre. Ah, que minha história fosse como um raio de sol, irresistivelmente louro, quente, vivo, em sua vida de moça reclusa, enlutada, doente. Que ela mesma ficasse admirada ouvindo o próprio riso, e depois repetisse para si própria — “mas essa história é mesmo muito engraçada!”.
Que um casal que estivesse em casa mal-humorado, o marido bastante aborrecido com a mulher, a mulher bastante irritada com o marido, que esse casal também fosse atingido pela minha história. O marido a leria e começaria a rir, o que aumentaria a irritação da mulher. Mas depois que esta, apesar de sua má vontade, tomasse conhecimento da história, ela também risse muito, e ficassem os dois rindo sem poder olhar um para o outro sem rir mais; e que um, ouvindo aquele riso do outro, se lembrasse do alegre tempo de namoro, e reencontrassem os dois a alegria perdida de estarem juntos.
Que nas cadeias, nos hospitais, em todas as salas de espera a minha história chegasse — e tão fascinante de graça, tão irresistível, tão colorida e tão pura que todos limpassem seu coração com lágrimas de alegria; que o comissário do distrito, depois de ler minha história, mandasse soltar aqueles bêbados e também aquelas pobres mulheres colhidas na calçada e lhes dissesse — “por favor, se comportem, que diabo! Eu não gosto de prender ninguém!”. E que assim todos tratassem melhor seus empregados, seus dependentes e seus semelhantes em alegre e espontânea homenagem à minha história.
E que ela aos poucos se espalhasse pelo mundo e fosse contada de mil maneiras, e fosse atribuída a um persa, na Nigéria, a um australiano, em Dublin, a um japonês, em Chicago — mas que em todas as línguas ela guardasse a sua frescura, a sua pureza, o seu encanto surpreendente; e que no fundo de uma aldeia da China, um chinês muito pobre, muito sábio e muito velho dissesse: “Nunca ouvi uma história assim tão engraçada e tão boa em toda a minha vida; valeu a pena ter vivido até hoje para ouvi-la; essa história não pode ter sido inventada por nenhum homem, foi com certeza algum anjo tagarela que a contou aos ouvidos de um santo que dormia, e que ele pensou que já estivesse morto; sim, deve ser uma história do céu que se filtrou por acaso até nosso conhecimento; é divina”.
E quando todos me perguntassem — “mas de onde é que você tirou essa história?” — eu responderia que ela não é minha, que eu a ouvi por acaso na rua, de um desconhecido que a contava a outro desconhecido, e que por sinal começara a contar assim: “Ontem ouvi um sujeito contar uma história…”.
E eu esconderia completamente a humilde verdade: que eu inventei toda a minha história em um só segundo, quando pensei na tristeza daquela moça que está doente, que sempre está doente e sempre está de luto e sozinha naquela pequena casa cinzenta de meu bairro.

Do livro: A traição das elegantes